Junho de 2026. O decreto federal que obriga o uso do BIM em obras públicas federais já tem seis anos de vida, a CBIC declara que a metodologia é uma realidade consolidada no país, e os softwares evoluíram a ponto de integrar inteligência artificial na elaboração de orçamentos. Tudo isso soa muito bem no papel. Mas quem passa o dia em campo, como eu, sabe que o canteiro de obras tem uma velocidade própria, e ela raramente acompanha o ritmo dos comunicados institucionais.
O que os números dizem e o que escondem
A adoção do BIM cresceu de forma inegável no setor privado de médio e grande porte, especialmente em incorporadoras e construtoras que trabalham com empreendimentos repetitivos, onde o retorno do investimento em modelagem é mais fácil de mensurar. No segmento público, o avanço veio puxado pela obrigatoriedade regulatória: o Decreto 10.306/2020 criou um calendário de implementação que, ao menos no papel, forçou órgãos federais a exigirem BIM em seus contratos de projeto e obra. A Plataforma BIM BR, coordenada pela ABDI, traçou metas para ampliar o percentual de contratos monitorados com essa metodologia, inclusive em projetos do Novo PAC.
Só que existe uma distância enorme entre exigir BIM no edital e usar BIM de fato no canteiro. No Rio Grande do Norte, acompanho obras públicas municipais e estaduais há anos. O que vejo com frequência é um modelo 3D produzido para cumprir exigência contratual, entregue junto com a documentação licitatória, e depois completamente ignorado durante a execução. O mestre de obras não consulta o modelo. O fiscal não sabe operá-lo. E o projetista que o desenvolveu já passou para o próximo contrato.
O gargalo real está na cadeia, não na ferramenta
O problema não é técnico no sentido estrito. Os softwares disponíveis em 2026 são maduros, acessíveis e cada vez mais integrados a rotinas de orçamentação e planejamento com apoio de IA, como debatido amplamente nos eventos do setor. O problema é estrutural e humano. A cadeia produtiva da construção civil brasileira ainda é muito fragmentada: o projetista entrega o modelo, a construtora contrata um gerenciador que não participou do projeto, o fiscal é terceirizado e nunca viu o arquivo IFC na vida.
Para que o BIM transforme o canteiro de verdade, é preciso que todos os agentes dessa cadeia compartilhem o mesmo ambiente de dados comuns, o famoso CDE. Isso exige protocolo, disciplina e, principalmente, que o contratante público tenha capacidade técnica para exigir e fiscalizar a interoperabilidade entre as partes. Na prática, municípios menores sequer têm engenheiros concursados em número suficiente para fiscalizar obras convencionais. Pedir que eles fiscalizem um fluxo BIM é, no momento atual, uma fantasia bem-intencionada.
Onde o BIM já entrega resultado concreto
Seria desonesto ignorar os avanços reais. Em obras de infraestrutura de maior porte, onde há equipes estruturadas e contratos com exigências claras de gestão, o BIM já demonstrou redução de incompatibilidades entre projetos de diferentes disciplinas, o que historicamente é uma das maiores fontes de aditivos de prazo e custo no Brasil. O gerenciamento de custos em tempo real, integrado ao modelo 4D e 5D, também começa a aparecer em médias obras com gestão mais profissionalizada, conforme pesquisas recentes da área.
Além disso, a pressão das construtoras privadas sobre seus fornecedores e subcontratados começa a criar uma demanda de baixo para cima por capacitação técnica, algo que o setor público ainda não conseguiu replicar de forma sistemática.
O diagnóstico honesto
O BIM transformou o processo de projeto no Brasil. Isso é fato. Transformou o canteiro? Em casos pontuais, sim. Na média da obra pública brasileira, ainda não. A metodologia chegou antes da maturidade institucional necessária para sustentá-la. Temos decreto, temos plataforma nacional, temos software de ponta, mas falta o elo mais básico: gente capacitada em todos os níveis da cadeia, do secretário municipal ao encarregado .
A pergunta que me faço toda vez que vejo um relatório celebrando a consolidação do BIM no Brasil é simples e incômoda: quantas das obras que estão sendo executadas hoje com dinheiro público no interior do Nordeste têm um modelo BIM sendo consultado em tempo real por quem toma decisões no campo? A resposta honesta a essa pergunta vale mais do que qualquer comunicado institucional.
