Tem uma conversa que precisa acontecer com mais honestidade dentro da construção civil brasileira. Não é sobre qual software de BIM é melhor, não é sobre quantas empresas já adotaram a tecnologia, e muito menos sobre projeções para 2026. A conversa é mais difícil do que isso: quem, de fato, vai usar essa ferramenta no canteiro?
O modelo fica no escritório, a obra acontece no chão
Quando falo de BIM com outros engenheiros, a conversa quase sempre orbita em torno de compatibilização de projetos, clash detection, quantitativos automáticos. Coisas reais, úteis, que resolvem problemas sérios na fase de planejamento. Mas existe um abismo entre o modelo tridimensional renderizado na tela do escritório e o mestre de obras que está interpretando um croqui impresso em papel A4, dobrado no bolso da calça.
Ferramentas como o Cotaly BIM chegam com uma proposta diferente: simplificar o acesso, tornar a informação do modelo navegável para quem está com a colher de pedreiro na mão. A ideia, no fundo, não é nova. É o que a construção civil deveria ter feito desde o início com qualquer tecnologia: aproximar a informação de quem executa. O que muda é que agora existe uma tentativa real de tornar isso operável por um encarregado, por um servente, por um mestre que nunca abriu um Revit na vida.
Mas será que a obra está preparada para isso?
Preciso ser direto: não está. Ainda não.
Não porque falta tecnologia. Não porque falta vontade dos profissionais. Falta algo muito mais profundo, que é uma mudança cultural dentro do canteiro. A construção civil brasileira ainda carrega uma lógica de hierarquia de informação que é quase feudal: o engenheiro sabe, o mestre interpreta, o pedreiro executa. A informação desce em camadas, distorcendo ao longo do caminho, e o retrabalho aparece lá embaixo como consequência natural desse telefone sem fio.
Colocar um tablet na mão de um encarregado com o modelo BIM aberto não resolve isso sozinho. Pelo contrário, sem preparo, pode criar uma camada nova de confusão. Já vi isso acontecer com muito menos. Uma planta mal comunicada já gera problema. Imagina um modelo tridimensional sem ninguém para mediar a leitura.
A mudança que importa é de dentro para fora
O que precisa acontecer antes de qualquer implementação de BIM no canteiro é uma decisão sobre como a obra quer se comunicar. Quem é responsável por traduzir o modelo para a linguagem do campo? Esse papel precisa existir formalmente, e precisa ser valorizado. O mestre de obras que aprende a navegar num modelo BIM não é um técnico de TI improvisado. Ele é um profissional mais completo, com acesso a informação que antes nunca chegava até ele.
Nas obras que acompanho aqui em Natal, o que mais atrasa execução não é falta de material, não é mão de obra. É dúvida sobre o projeto. O servente para porque não sabe se o contrapiso vai antes ou depois do revestimento naquele trecho. O encarregado espera o engenheiro chegar porque a planta não está clara. Essas paradas custam tempo. E tempo, em obra, custa dinheiro.
Se uma ferramenta consegue colocar a resposta certa na mão de quem precisa dela, no momento em que ela é necessária, isso tem valor real. Não é sobre tecnologia pela tecnologia. É sobre reduzir o intervalo entre a dúvida e a decisão correta.
O que espero ver nos próximos anos
Espero ver menos apresentação de BIM em congresso e mais treinamento de mestre de obras em canteiro. Espero ver construtoras investindo em capacitar encarregados para ler modelos da mesma forma que investem em EPI. Espero ver o BIM sendo cobrado não só na entrega do projeto, mas na execução, no dia a dia, na RDO, na conversa de início de turno.
A ferramenta simples existe. A pergunta que fica é se a cultura da obra vai evoluir no mesmo ritmo. Por enquanto, a ponte entre o escritório e o campo ainda está sendo construída. E ela vai ser feita de treinamento, de confiança e de decisão gerencial, não de software.
Se você está planejando uma construção residencial em Natal e quer uma obra onde a informação chega certa para quem executa, fale com a Leonette Engenharia. Tempo e obra.
