Estamos em junho de 2026 e ainda tenho que explicar para construtoras por que usar uma planilha do Excel de 2008 para gerenciar cronograma de obra é um problema. Se isso não diz tudo sobre o estado da digitalização na construção civil brasileira, não sei o que diz.
O Setor que o Mundo Deixou Para Trás
A construção civil é, sem exagero, um dos setores mais resistentes à transformação digital do planeta. Enquanto a indústria manufatureira automatizou linhas inteiras de produção, enquanto o agronegócio brasileiro passou a operar com drones e sensores de solo em tempo real, a construção civil — especialmente aqui no Nordeste — ainda discute se vale a pena investir num software de gestão de obras. A resposta, por sinal, é sempre a mesma: 'a gente sempre fez assim e funcionou.'
Funcionou. Essa é a palavra que me irrita profundamente nesse debate. Funcionou dentro de um paradigma de desperdício normalizado, de prazo estourado como regra e não como exceção, de retrabalho embutido no orçamento como se fosse inevitável. Quando você chama esse modelo de 'funcionar', está confundindo sobrevivência com eficiência.
O BIM Não É Moda, É Infraestrutura Intelectual
O Building Information Modeling existe há décadas. Em 2026, países como Reino Unido e Cingapura já exigem BIM em contratações públicas há anos. No Brasil, o Decreto Federal 9.983/2019 estabeleceu uma estratégia nacional para implementação gradual da tecnologia em obras públicas. Sabe o que aconteceu na prática? A maioria dos municípios brasileiros, incluindo boa parte dos do Rio Grande do Norte, ainda não tem sequer um técnico capacitado para operar a ferramenta. O decreto existe. A realidade ignora o decreto.
Não estou falando apenas de modernidade pela modernidade. Estou falando de uma tecnologia que reduz incompatibilidades de projeto antes do primeiro centímetro de concreto ser lançado, que detecta conflitos entre estrutura e instalações hidrossanitárias em ambiente virtual, que poupa dinheiro público de forma mensurável. Um estudo recente aponta que a adoção de ferramentas de modelagem 3D e BIM teve papel decisivo na redução de desperdícios em projetos onde foi efetivamente implementada. O problema é que 'onde foi efetivamente implementada' ainda é uma fração pequena demais do mercado.
O Argumento da Mão de Obra Não Cola Mais
O contra-argumento mais comum que ouço em obras e escritórios é a falta de mão de obra qualificada para operar tecnologias digitais. Justo. Mas esse argumento, que já foi legítimo há dez anos, hoje é uma desculpa conveniente para não mudar. Há uma geração inteira de engenheiros e técnicos saindo das universidades com familiaridade em BIM, drones de topografia, softwares de gestão como o Sienge e similares. O mercado simplesmente não absorve essas competências porque o modelo de gestão das empresas não foi reformulado para recebê-las.
A resistência não é tecnológica. É cultural e, em muitos casos, é econômica no pior sentido: o gestor que domina o caos da obra informal tem poder. O canteiro desorganizado cria dependência. A digitalização transparente ameaça zonas de conforto que vão muito além da ignorância tecnológica.
O Custo Real da Inércia
Em obras públicas, onde atuo diretamente, o custo dessa resistência é pago pelo contribuinte. Projetos sem compatibilização adequada geram aditivos contratuais que desviam recursos. Cronogramas gerenciados na cabeça do mestre de obras atrasam inaugurações. A falta de rastreabilidade digital dificulta auditorias e facilita irregularidades. A digitalização não é apenas uma questão de competitividade empresarial — em obras públicas, é uma questão de governança e transparência.
A pressão por prazos menores e margens mais estáveis que o mercado impõe em 2026 está acelerando, aos trancos, a migração para métodos construtivos mais industrializados e digitalizados. Mas essa pressão ainda não chegou com força suficiente onde precisa chegar: na cultura de gestão das pequenas e médias construtoras que executam a esmagadora maioria das obras públicas municipais no interior do Brasil.
'A gente não toma água de hidrante' — ouvi essa frase recentemente num podcast do setor, referindo-se ao excesso de dados disponíveis que ninguém processa. Concordo com o diagnóstico, mas discordo da resignação implícita. O problema não é excesso de informação. É a decisão deliberada de continuar ignorando o que incomoda.
Até Quando?
A construção civil vai digitalizar. Não por virtude, mas por pressão de mercado, por exigência regulatória crescente e porque o custo de não digitalizar está ficando maior do que o custo de mudar. A questão é quantas obras mal feitas, quantos recursos desperdiçados e quantos prazos estourados ainda serão necessários antes que o setor assuma que 'sempre funcionou assim' nunca foi sinônimo de 'é o melhor que podemos fazer.'
Talvez a pergunta certa não seja por que o setor resiste à digitalização. Talvez seja: quem, exatamente, se beneficia de manter essa resistência viva?
